entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Pedro Leite
- Coletivo de Analistas Palavra e Vereda

- 17 de fev. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 10 de mar. de 2025
Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.
A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise.
Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan – é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em 9 seminários, com destaque para o seminário 11 e 13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan.
Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.
De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas.
Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura.
Confira a primeira entrevista realizada, com Pedro Morales Tolentino Leite, psicanalista e escritor. Pedro é graduado e mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Aprimoramento em Clínica das Psicoses pelo Instituto A Casa e Especialização em Saúde pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Escreveu Sobre Humano (2014) e Essa cidade muda e outro conto (2021).
A resposta de Pedro à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista” foi transcrita abaixo mantendo a primeira pessoa do singular.
“Minha formação em psicanálise começou na clínica com crianças, e ao longo do tempo passei por diversos reinícios. Eu consigo pensar em algumas obras ou em alguns textos no interior de grandes obras que foram muito significativas para questões que estavam dadas em cada um desses tempos. Com certeza, gostaria de não ser tão previsível, mas a obra do Freud foi aquela que foi muito marcante no início, embora seja o caminho muito cotidiano dos analistas, seria aquela que primeiro abriu um grande universo para mim.
E acho que da vasta obra dele, tem um texto dele que me marcou muito profundamente e que foi A Negativa (1925), também traduzido para A Negação, um texto simples, curto, mas como a psicanálise tem uma trama conceitual – a gente fala de conceitos axiais, conceitos que se definem por outros conceitos – quando eu li esse texto parece que eu assimilei algo ali, sobre a clínica, sobre o que um analista escuta, onde que está exatamente situado o inconsciente e como ele aparece no âmbito da clínica. Esse texto foi muito marcante para mim, então, eu diria primeiro como início a obra de Freud e esse texto.
Um texto não é somente o texto em si, mas o tempo que a gente lê e com quem, era um momento que eu estava em supervisão coletiva, foi um texto que teve várias vozes de debate, e passa por isso também minha escolha.
E outra obra que foi muito encantadora é a da Radmila Zygouris. Isso porque eu sinto como se ela tivesse me salvado um pouco do que eu entendo que é – não sei se é certo chamar de – um “lacanismo”, mas que seriam essas transmissões mais performáticas, atitudinais, que não necessariamente é sobre aquilo que o Lacan estava tentando ensinar, mas que vai tomando um corpo nas escolas e criando um tipo de ausência da função experimental das análises.
A obra da Radmila deu uma arejada substancial para mim, em um momento que eu estava me apegando muito às formas visíveis pelas quais os analistas tentavam se dizer analistas, a partir de certas performances ou de alguns axiomas, de algumas formas de efeito, que me fez pensar; ela me balançou um pouco. A partir dela eu comecei a ler outros autores, me abri mais a um caráter heterodoxo, que não necessariamente não preza pelo rigor, mas que não faz silêncio sobre alguns temas que eu entendo que são importantes para a prática. Quando eu li o Freud, ainda estava em um campo bastante teórico e abstrato de descoberta sobre o pensamento, sobre o que é a psicanálise. E quando eu entrei na clínica foi um encontro grandioso com alguém que está muito ocupado do que acontece ali mesmo, na cena clínica, de coisas que não necessariamente aparecem nos textos que são mais teóricos ou de maior abrangência.
O Freud eu comecei a ler na graduação, principalmente os textos clássicos. A primeira obra que eu li dele foi A Interpretação dos Sonhos (1900), foi uma leitura acompanhada em disciplina, também depois O caso Dora (1905). A Negativa foi um texto que não me foi sugerido (depois eu descobri que é um texto que o Lacan fala bastante), mas naquela época ele veio como uma surpresa, e eu acho que isso teve todo seu peso. É legal você encontrar com algo ali que já não tem uma linha interpretativa ou que você leu muitos comentadores e você se depara e faz uma descoberta pessoal, digamos assim. É um texto simples, mas quando você me contatou para a entrevista foi o primeiro texto que me ocorreu – ele me deu um estalo. Não sei se você já teve essa sensação, de às vezes você está lendo lendo e de repente alguma coisa se descortina. O Lacan também é um autor importante, mas eu ainda estou em discussão com ele, ainda tem história pela frente. Ainda está em aberto, por isso não posso dizer que foi marcante porque está em percurso essa parte.
Me escutando agora, já que você criou essa oportunidade, eu acho que me tocaram muitos livros – é difícil falar isso – mas que falam com uma certa verdade sobre a situação do tratamento psicanalítico, não que só isso seja importante, eu entendo a importância da filosofia da clínica e da teorização complexa.
Me lembrei do Oswaldo di Loreto também, com o Casos e Causos Acontecidos no Tempo das Diligências (2009) e sobre a clínica das crianças. Na época em que eu li fez pouco sentido porque eu não atendia ainda, mas ele tem uma pegada um pouco assim, de pensar o que que acontece ali, que tipo de identidades os analistas se revestem para conseguir suportar esse paradigma de só suposto saber, mas para fingir que sabe, e esse tipo de coisas, esse também é um autor que me lembrei agora e está nessa linha.
As leituras são companhias; elas ficam mesmo. É uma pergunta interessante de se fazer para si e para os outros. Na minha experiência, é isso: marcam-me esses autores com quem me senti próximo, como se tivessem dito algo sobre o que estou vivendo. Isso nos dá a possibilidade de ocupar esse lugar, que é bem enigmático e diferencial em cada caso.”
Essa é a primeira de uma série de entrevistas que vamos realizar. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita!




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