entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Elina Sartori
- Coletivo de Analistas Palavra e Vereda

- 17 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 27 de mar. de 2025
A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise.
Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan – é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em 9 seminários, com destaque para o seminário 11 e 13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan.
Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação.
De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas.
Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura.
Já publicamos a entrevista com Pedro Morales Tolentino Leite, Ana Paula Fonini, Allan Kenji e agora publicamos a quarta rodada, com Elina Sartori.
Elina possui graduação em psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atualmente atua como psicanalista clínica na cidade de Florianópolis/SC. A resposta de Elina Sartori à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista” foi transcrita abaixo, mantendo a primeira pessoa do singular:
“Quando eu tomei contato com a pergunta me veio uma avalanche de coisas. Fiquei pensando como é difícil escolher um livro, um texto só, para falar do quanto ele é ou foi marcante na minha formação como psicanalista. E é interessante né, perguntar “qual o livro?”, porque o que eu fiquei pensando é que mesmo antes de se saber que você está em uma formação como psicanalista, leituras que nos atravessam e atravessaram a vida também são parte dessa formação. Então, eu penso que… eu fui uma adolescente muito leitora, voraz, de explorar muitos autores, como Guimarães Rosa, Clarice Lispector… e hoje eu vejo o quanto esses autores compõem a minha formação também como psicanalista, nessa possibilidade de já ir pesquisando algo dos sentimentos humanos, dos conflitos também, daqueles personagens. Muitos autores contemporâneos também, mais adiante fui explorando, e eu acho que a literatura, literatura japonesa, africana, brasileira, enfim, italiana, fazem muito parte da gente estar apurando a nossa escuta em relação ao que aparece no consultório, na singularidade de cada um, na possibilidade de ir abrindo a cabeça para novas experiências possíveis e humanas.
Mas direcionando à pergunta em relação a uma formação mais direcionada à psicanálise, eu pensei que o primeiro texto que eu tive contato, que foi em um grupo de estudos que eu comecei a participar e que tem um papel muito importante e forte na minha formação — uma formação mais aberta, não ligada a nenhuma escola específica, mas muito colaborativa com colegas, com pares —, foi o texto “Introdução ao narcisismo”. Foi um texto onde eu fui descobrindo a importância da metapsicologia freudiana, do quanto essa teorização sobre o aparelho psíquico, sobre o funcionamento mental, sobre as questões tópicas, dinâmicas, econômicas e como tudo isso vai se formando e funcionando de acordo com a teoria, pra mim foi apaixonante.
Foi a partir desse texto que eu me dei conta do quanto aquilo era algo que a princípio eu tava tomando contato, mas que eu queria muito aprofundar, saber e ler sobre. Então foi um momento bem chave, assim. Eu me lembro desse texto de uma forma muito forte na minha formação. E explorar o texto… nele também fala sobre as questões do ideal do eu, sobre as diferentes estruturas, neurose e psicose.
E aquilo era um alvo muito grande da minha curiosidade como estudante, mas foi também o que abriu as portas para eu ir explorando e estudando cada vez mais. Enfim, é o que me recordei agora, da base daquele texto que iniciou a minha formação. Espero ter respondido a questão e fico disponível para qualquer outra questão que possa ter ficado. Um abraço".




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