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entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Allan Kenji

  • Foto do escritor: Coletivo de Analistas Palavra e Vereda
    Coletivo de Analistas Palavra e Vereda
  • 10 de mar. de 2025
  • 5 min de leitura

Atualizado: 27 de mar. de 2025

A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise. 


Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan.


Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. 


De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas.


Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura. 


Já publicamos a entrevista com Pedro Morales Tolentino Leite, Ana Paula Fonini Araújo e agora publicamos a terceira rodada, com Allan Kenji. 


Allan possui Graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) (2011), é mestre (2014) e doutor (2020) em Educação pela UFSC. Desde 2021, realiza Estágio de Pós-Doutorado na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é Pesquisador no Grupo de Estudos e Pesquisas em Políticas Educacionais (GREPPE). É Pesquisador Visitante na Université Paris 8 - Vincennes-Saint-Denis, na qual desenvolve projeto de pesquisa sobre a indústria de Tecnologias Educacionais Digitais na França no contexto pós-pandemia do SARS-COV-19. Escreveu e publicou os livros Desventuras dos Professores na Formação Para o Capital (2019) e O capital financeiro no ensino superior brasileiro (2021). 


A resposta de Allan Kenji à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista” foi transcrita abaixo, mantendo a primeira pessoa do singular.


"Das leituras que fiz no final do curso de Psicologia, lembro-me de uma indicação que foi muito importante na minha constituição como analista e que veio da minha supervisora à época no SAPSI, Beatriz Molinos. Ela me recomendou um livro do psicanalista italiano Antonino Ferro. Recordo-me de muito pouco da obra em si, mas o que me marcou foi um princípio ético. Ele dizia: nós temos a “psicanálise freudiana”, “a psicanálise kleiniana”, “a psicanálise bioniana”, mas, quando abrimos a porta do consultório e fazemos entrar a criança, temos apenas “a psicanálise”. A partir dali, a psicanálise é uma coisa única, vulnerável, que será desafiada sem tréguas pelos próximos 30 ou 40 minutos – em cada sonho, desenho, brincadeira, em cada observação dita como se fosse nada ou em cada um desses pequenos atos que constituem uma análise.


Mas e se algo que acontece no consultório for estranho demais ao que é a prática clínica? Se as coisas que o paciente diz e faz não funcionarem bem com as coisas que a teoria diz e com aquilo que o psicanalista sabe fazer com elas naqueles milissegundos que contam nos atos de análise? O princípio que aprendi com ele, ou pelo menos eu o li assim, é que: na dúvida, escolha o paciente. Escolha o paciente na ausência de sentidos, naquilo que é esquisito, louco, sem saída. E, no limite, fique com o paciente, mesmo que isso signifique ter que reinventar toda a psicanálise para poder tratá-lo. Porque todo o resto – a vaidade do analista, a imagem que faz de si (ou a que ele supõe que os outros fazem), suas filiações teóricas e as coisas de “Escolas” de psicanálise – tão importantes fora do consultório – não devem nunca ter mais importância do que a capacidade da clínica de escutar aquele paciente (singular).


Não há algo novo aí. Esse princípio ético está na fundação da psicanálise. A psicanálise não teria nascido – ou, pelo menos, seria muito diferente – se Freud, diante do vazio de saber que seus pacientes produziam, da inconsistência das técnicas e da esterilidade dos recursos da medicina moderna, não houvesse escolhido ficar com os seus pacientes. Mesmo que isso tenha significado fundar uma nova medicina, com outros fundamentos e outras técnicas. E ele está lá, presente na clínica das psicoses de Lacan, no Discurso de Roma, e nas várias rupturas que a psicanálise produziu quando ela própria instituiu para si certa ortodoxia.

Eu não me tornei “Ferroniano”, mas, olhando retrospectivamente, aquela leitura, naquele momento, me ajudou muito a definir minha própria clínica nos anos que se seguiram. E, de certa forma, a acreditar que esse fundamento ético da psicanálise é um fio que costura todo o edifício filosófico, científico e político da psicanálise em uma coisa só. Ainda que cada um de nós tenha de descobrir, não sem alguma angústia, a sua própria maneira de formar um nó que nos amarre com esta Coisa, que não passa de uma invenção, que é a psicanálise.


O segundo livro que foi muito importante e, na realidade, marcou o momento da minha decisão pela psicanálise foi Niétotchka Niezvânova. Na última disciplina que fiz na graduação, escrevi um ensaio sobre este livro que amarrou uma posição política muito pessoal sobre a forma como a psicanálise deve considerar a literatura e que define certos termos do que eu penso, também, que deve ser a relação entre a teoria e a prática clínica.


Este é um livro único por várias razões. É uma dessas peças-chave que, se encontrada, permite refazer a genealogia da subjetividade de todo um tempo histórico. É carregado da ruptura com o romantismo e o pragmatismo e, por isso, embora antecipe o realismo psicológico, constitui uma dessas obras que não encaixam muito bem em lugar algum. Trata-se de uma pequena novela inacabada e que, apesar disso, apresenta um ponto de ruptura da narrativa que combina perfeitamente com a história que conta. Niétotchka é uma menina que cresce na experiência de toda sorte de abandono e de violência e que, de alguma forma, expressa uma convicção firme e quase impertinente com a vida e o próprio desejo. Ser vítima não parece constituir para ela uma tese, e nem viver parece engendrar exatamente uma solução. Ela não deixa, então, de experimentar os deslocamentos, a fragilidade e a busca desesperada por pertencimento.


O texto começou a ser escrito em um momento no qual a Europa foi varrida pela Primavera dos Povos (1848/1849) e marcado pela prisão do autor, pela repressão czarista, devido à sua proximidade com os socialistas utópicos – reflexo da violência da luta de classes nas últimas décadas do antigo regime. Por isso, ele releva também as tensões de classes, a violência, os abusos, as misérias e os deslocamentos subjetivos que são próprios de uma modernidade que ainda não nasceu. Talvez por tudo isso, exista ali um “antirromantismo” e uma posição analítica em relação à subjetividade muito singular, que se constitui entre dois tempos. É bem possível que, pela mesma razão, este livro consiga articular uma posição de escuta, de forma muito inteligente e visceral, sobre questões de ordem psicológica tão profundas e fundamentais que antecipam em mais ou menos cinquenta anos a psicanálise".


Essa é a terceira publicação de uma série de entrevistas que estamos realizando com alguns psicanalistas sobre a temática do início da formação e a leitura que lhe marcou. Convidamos vocês leitores a acompanharem nosso site e a se inscreverem em nosso Substack para receber novidades sobre nossas atividades e nossos exercícios de escrita e circulação da palavra!

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