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entrevista | qual livro marcou o início de sua formação em psicanálise? com Pedro Heliodoro Tavares

  • Foto do escritor: Coletivo de Analistas Palavra e Vereda
    Coletivo de Analistas Palavra e Vereda
  • 16 de abr. de 2025
  • 9 min de leitura

A formação do psicanalista é uma temática bastante explorada e, ultimamente, carregada de controvérsias, tendo em vista uma série de empreitadas que reduzem essa experiência a uma relação instrumental e imediatista com a teoria e o trabalho com a clínica, tratando-os de forma estreita por meio de  “ofertas” de “cursos” e até mesmo de “graduações” em psicanálise. 


Em uma breve pesquisa no Index Referencial de Henry Krutzen – organização das referências dos seminários de Jacques Lacan –  é possível observar que Lacan menciona a formação do analista 14 vezes, distribuídas em  9 seminários, com destaque para o seminário 11 e  13. Já o tema do desejo do analista aparece com ainda mais frequência, cerca de 27 vezes em 9 seminários. Citamos não para tirarmos conclusões sobre, mas sim para demonstrar a relevância do tema na trajetória de Lacan.


Com o objetivo de fazer circular a questão sobre a formação do psicanalista, perguntamos a alguns psicanalistas que atravessaram e atravessam nossa formação sobre qual obra ou autor foi marcante no início de sua formação. 


De nossa parte, é instigante ter notícias de como foi esse percurso inicial, seja pelo entusiasmo que foi capaz de produzir, ou mesmo pelo direcionamento que pode apresentar para as questões elencadas como fundamentais em seus estudos e pesquisas.


Nossa proposta é inspirada a partir de um livro que gostamos muito chamado “Seu paciente favorito: 17 histórias extraordinárias de psicanalistas”. A autora, Violaine de Montclos, perguntou a diversos analistas qual era seu paciente favorito, e, como a ideia de ‘paciente favorito’ varia de analista para analista, suas escolhas são tão interessantes quanto as histórias que escolheram contar, e o resultado são entusiasmantes horas de leitura. 


Já publicamos a entrevista com Pedro Morales Tolentino Leite, Ana Paula Fonini, Allan Kenji Seki, Elina Sartori e Luciano Elia. E agora publicamos a sexta rodada com Pedro Heliodoro.


Pedro Heliodoro, em seu percurso formativo e de trabalho, atuou como Professor Adjunto na Área de Alemão no Departamento de Língua e Literatura Estrangeiras da Universidade Federal de Santa Catarina até o ano de 2024; anteriormente (2011-2018) Professor-Doutor da área de Alemão - Língua, Literatura e Tradução da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Doutor em Psicanálise e Psicopatologia pela École Doctorale Recherches en Psychanalyse da Université Paris VII (Paris-França) (2005-2008), bem como Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003-2007). Realizou Pós-Doutorado junto à Pós-Graduação em Estudos da Tradução - UFSC (2010-2011) investigando as traduções da obra de Sigmund Freud. Foi pesquisador-visitante no Zentrum für Literatur- und Kulturforschung (2016-2017) em Berlim - Alemanha. Atualmente, coordena com Gilson Iannini a coleção "Obras Incompletas de Sigmund Freud" (Ed. Autêntica), edição da qual é também o coordenador de tradução e revisor técnico. Pedro é autor dos livros "Versões de Freud" (7Letras, 2011), "Fausto e a Psicanálise" (Annablume, 2012), "Freud & Schnitzler" (Annablume, 2007) e coorganizador de "Tradução e Psicanálise" (7Letras, 2013) e "Psicanálise entre línguas" (7Letras, 2016). Trabalha como psicanalista clínico na cidade de Florianópolis/SC.


A resposta de Pedro Heliodoro à pergunta “qual livro marcou o início da sua formação como psicanalista” foi transcrita abaixo, mantendo a primeira pessoa do singular:


[Pedro] Bom, primeiramente obrigado pelo convite. Fiquei muito feliz de poder dividir aqui uma coisa que foi tão cara para mim, que é relembrar que obras ou qual obra em maior nível acabou influenciando o meu interesse pela psicanálise, a minha entrada em uma formação em psicanálise. E confesso que não foi fácil essa pergunta, que parece uma pergunta tão simples. Por coincidência, eu acabei de ser convidado para uma outra atividade que é “Um livro que marcou a minha vida”, que está sendo organizada pela Maiêutica Florianópolis. E quando se fala “Um livro que marcou a minha vida”, eu diria que o Fausto de Goethe, que foi até o objeto do meu doutorado, em 2007, em que eu fiz relações do mito de Fausto, não só o do livro de Goethe, e o Seminário 23 de Lacan. Mas quando eu comecei a me interessar pela psicanálise, na verdade, eu estava fazendo a graduação de Psicologia na UFSC, então é legal saber que vocês também vêm daí, foi ótimo saber dessa coincidência… 


Naquela época, eu me lembro que eu estava começando a ficar desanimado com o curso de Psicologia, não era bem aquilo que eu imaginava. E tinha uma questão de que eu tinha feito já um intercâmbio para a Alemanha, dois anos antes de começar a estudar psicologia, e me lembro que muitas vezes quando apareciam termos em alemão na psicologia, as pessoas falavam “Ah, o Pedro dá aula particular de alemão, então vamos ver com ele o que que é essa palavra”.  Eu me lembro que essa questão da correlação da linguagem, das palavras, seja no sentido mais linguístico, mais literário, começou até a me mover a pensar “Será que eu continuo na psicologia? Será que eu vou para um curso de letras?”. E aí veio a psicanálise. A psicanálise veio em uma disciplina que na época era intitulada Escolas Psicológicas I, II e III, eu não me lembro se a psicanálise estava colocada como II ou III, não me lembro exatamente. E aí me abriu essa questão, justamente, da dimensão da linguagem na subjetividade. 


Então, assim… se for falar de uma obra que marcou a minha entrada para a formação na psicanálise… claro, a gente passa pelos óbvios. Tem A Interpretação do sonho que, por sinal, a gente está agora para lançar na série Obras Incompletas da Autêntica, é o próximo lançamento. Então, A Interpretação do sonho certamente. Eu li primeiro aquele texto mais resumido sobre o sonho, depois A Interpretação do sonho, Os três ensaios sobre a teoria sexual, tudo isso foi muito importante. Mas eu me lembro que a partir da disciplina eu fui buscar uma formação em psicanálise. Eu não sabia muito bem como e cheguei até a Maiêutica Florianópolis na época, ali no final da década de 90, acho que 98 ou 99, e estava começando um Cartel de Psicanálise e Arte. E o primeiro texto que foi trazido pra gente estudar foi o Das Unheimliche, que era traduzido naquela versão da Standard Brasileira - a única disponível na época - como “O estranho”... isso já me causou estranheza, né? Uma estranheza de fato, uma infamiliaridade de “Como assim?! Não é bem isso”. E aquele texto pra mim acho que foi fecundo de diferentes formas. Eu acho que em primeiro lugar por trazer essa importância da não obviedade do que está por trás dos fenômenos da linguagem e da tradução. De ver como uma palavra de uso tão cotidiano numa língua parece ser intraduzível para uma outra. Esse não isomorfismo léxico. 


Isso já começou a me chamar a atenção, de aquilo que a Barbara Cassin, até eu tô aqui com o Dicionário dos Intraduzíveis, ela fala justamente que Das Unheimliche é uma dessas palavras que são intraduzíveis porque elas não cessam de não se traduzir. Anos depois, na verdade, em 2019 por ocasião dos 100 anos da publicação do texto do Freud, eu tive a oportunidade de junto do Ernani Chaves fazer essa tradução do O Infamiliar. Foi pra mim um grande presente, nesse sentido, poder pensar junto ali; e isso foi super discutido — na verdade não só com o Ernani, mas com o Gilson Iannini, com o Romero Freitas —, porque realmente é um texto que me parece que traz essas diferentes dimensões. Traz a dimensão da questão do inconsciente não operar com a mesma lógica da consciência, quando a gente pensa em lógica, na lógica aristotélica da não contradição, quer dizer, que uma coisa ou é uma coisa ou é o seu contrário, ela nunca pode ser o seu contrário e em si. E esse texto desafia justamente essa lógica, ele aponta para uma lógica mais paraconsistente. De que, como o Freud vai desenvolvendo, a familiaridade como que ela se confunde com a infamiliaridade. Como que o heimliche se confunde com o unheimliche. Então me chamou atenção para isso na psicanálise, para essa ideia muito particular de negativo… eu vi uma outra entrevista de um outro psicanalista que foi influenciado pelo Die Verneinung, né, A negação ou A negativa, dependendo da tradução do Freud, que é um texto que dialoga com aquela ideia do sentido antitético das palavras primitivas e que aponta também para isso de que a experiência estética é até aquilo que, na formação do sujeito, precede a própria ética. 


Isso sempre me chama a atenção quando a gente vai tentar falar com uma criança sobre “o certo e o errado”, e a criança antes de ter contato com “o certo ou o errado”, nós falamos “ai que feio isso que você fez”, “olha, que lindo que ajudou o amiguinho”. Quer dizer, a gente de alguma maneira acaba percebendo que essa ideia do atraente, do repulsivo, daquilo que traz a importância da doutrina sobre os sentidos, sobre os sentimentos, na estética, vai para muito além de uma doutrina do belo. Quer dizer, tem alguma coisa aí daquilo que apela para as sensações. E então foi um texto que me chamou muito a atenção de como no ensaio do Freud, ele precisou justamente primeiro fazer um mergulho linguístico lexical. 


E aí uma coisa que depois também foi para mim uma descoberta naquele momento, de muitos autores que ele cita que são do romantismo alemão, como Schelling, Schlegel… Quer dizer, essa coisa que falava dessa potência que já estava na cultura da expressão alemã desde um século antes. Essa preocupação em ir para além de uma intelectualidade pautada meramente na racionalidade. Uma intelectualidade que apelasse também para a questão das sensações, para a questão da vida psíquica, no sentido emocional, afetivo. Então houve primeiro essa questão do fascínio com esse mergulho linguístico, etimológico, com a história do conceito e depois aquele presente que ele dá, aquela análise colocando o conceito para conversar com a literatura romântica do E.T.A. Hoffmann, O Homem da areia, dessa literatura de mistério que também para mim foi fundamental para pensar a subjetividade como um lugar onde a verdade tem estrutura de ficção. Quer dizer, pensar isso para a clínica. Para mim, do ponto de vista epistemológico, foi uma coisa que provocou uma grande viragem, sobretudo porque as outras correntes psicológicas que estavam sendo vistas no curso de psicologia naquela época se pautavam muito no empirismo, se pautavam muito na racionalidade… fossem as fenomenológicas, fossem as doutrinas mais norte-americanas, como o behaviorismo, depois disso derivando também para outras formas mais modernas de alguma coisa que apela mais para o cognitivo, para o racional. Mas me chamou atenção justamente essa ideia, de como no alemão a palavra “realidade” vem daquilo que tem um efeito. Wirking é ter efeito. Wirkung é um efeito de um remédio, por exemplo, de uma droga. E a Wirklichkeit é aquilo que opera como um efeito de realidade, como efeito de verdade. Isso foi importante para perceber que em uma análise o imaginado não é menos real do que, digamos, aquela realidade objetiva, a realität que está posta para o sujeito. 


Eu acho que nesse sentido foi um artigo tão breve, mas que me abriu tantas portas. Foi uma coisa que, realmente, a partir dali também pautou a minha formação com um pé na germanística e um pé na psicanálise. Fez despertar esse interesse pelo literário, pelo linguístico, pelo tradutológico. E ver como isso participa da experiência analítica. Quer dizer, como a experiência analítica, em maior ou menor grau, é uma experiência que tem a ver com isso. Freud já trazia esse símile da tradução desde A Interpretação do sonho, que é a maneira de tentar transpor alguma coisa que está posta num sistema ininteligível e tentar, passando pelo afetivo e, a partir do afetivo, fazer uma representação que possa ter uma inteligibilidade. Acho que foi também por aí essa influência. 


[Carol] E é legal que, pelo que você fala, marcou tanto o seu trabalho como analista, mas também o próprio trabalho que você decidiu seguir com as traduções. 


[Pedro] Na verdade, até era uma coisa curiosa, porque eu na época em que estudava psicologia, como eu tinha aprendido alemão — tinha ganhado essa bolsa pra fazer um intercâmbio escolar na Alemanha —, de maneira muito intuitiva eu dava aula particular, sem nenhuma formação especializada para isso. Eu dava aula particular de alemão e cursava psicologia. E depois, quando eu terminei a psicologia e fui fazer o mestrado em literatura, ali teve muitas obras do Schnitzler que me influenciaram, que foi aquele autor que Freud falou ser o seu duplo. E no doutorado também trabalhei com o literário. Mas essa questão da tradução surgiu, na verdade, quando a obra do Freud entrou em domínio público e as pessoas começaram a perguntar “Ah Pedro, qual é a melhor tradução que tem agora no português?” E aí eu via, poxa, não é tão simples assim dizer qual é a melhor. Melhor em que sentido? Melhor no sentido conceitual? Melhor no sentido fraseológico? Melhor no sentido estilístico? Até eu escrevi aquele livro “Versões de Freud” por conta disso. E eu não imaginava que tinha espaço para uma outra tradução. E foi aí que o Gilson Iannini fez o convite e a gente começou o projeto. Então foi uma coisa não muito planejada, na verdade.


[Carol] E que é um projeto que tem gerado várias contribuições para a gente hoje. 


[Pedro] É, eu tô bem animado. Agora que vem A Interpretação do sonho, né? Nós tendemos a  acreditar que vai sair nesse próximo semestre, vamos ver. É bem complicado, assim que você inicia tem uma série de remissões internas, dá uma trabalheira. Mas a revisão está se encaminhando. E vem com essa provocação, com essa proposta de “Interpretação do sonho” e não “dos sonhos”, né? A gente quer trazer aí com esse singular. 








Essa é a sexta entrevista de uma série sobre a temática do início da formação do psicanalista e a leitura que lhe marcou. Com essa entrevista, encerramos esse trabalho, mas outros estão em andamento. Confira também as entrevistas realizadas com Pedro Morales Tolentino Leite, Ana Paula Fonini, Allan Kenji Seki, Elina Sartori e Luciano Elia.


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