Uma psicanalista peculiar
- Coletivo de Analistas Palavra e Vereda

- 27 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Radmila Zygouris é uma escritora muito interessante. Ela marca de maneira inusitada a trajetória da minha formação. Leio e releio seus textos sempre que percebo estar apertada demais entre as paredes da clínica: eles abrem portas, janelas e claraboias, permitindo que o oxigênio circule novamente, dando vida às ideias.
Como estamos, no Palavra e Vereda, discutindo os temas da formação do psicanalista, faz sentido trazê-la à tona, não somente por ter aparecido como uma autora marcante para um dos psicanalistas em uma das entrevistas, mas também porque sua elaboração sobre o tema é autêntica.
Sobre sua trajetória, ela conta em Uma geografia peculiar (2011) que leu Freud pela primeira vez com 16 anos, quando morava em Buenos Aires. Os livros eram em alemão e emprestados de sua amiga, filha do primeiro psicanalista da Argentina, Angel Garma. Ficou maravilhada com a leitura, embora não se recorde exatamente qual foi o primeiro livro — talvez A Interpretação dos Sonhos.
Depois, na França, iniciou seus estudos universitários cursando Medicina (por ser estrangeira, era importante ter um diploma), mas, devido a dificuldades financeiras, teve de abandoná-los e passou a estudar Psicologia, curso que lhe permitia conciliar estudo e trabalho.
Ao descobrir que Leclaire fazia parte do grupo vinculado a Lacan, decidiu procurá-lo para iniciar sua primeira análise, tendo de aguardar um ano em lista de espera antes de começar o trabalho. Na mesma época, frequentava os seminários de Lacan — participou por cerca de 11 anos — e esteve presente naquele que seria o último antes de sua exclusão da Associação Psicanalítica Internacional (IPA).
Lacan estava lá em Saint’Anne, berrando como louco: ‘Não, não farei o seminário sobre o nome do pai’. Os outros estavam ali também com os olhos fora de órbita. Era um momento de grandes paixões, paixões iradas, inflamadas. Comecei a me sentir bem, confortável; tudo estava tão louco quanto na minha própria família. E foi por isso que escolhi ficar entre os lacanianos. Não foi pela profundeza do pensamento lacaniano. Foi porque os vi completamente imersos na paixão, nos gritos, no sofrimento. Senti que gostava dessa gente... Compreendam, não havia ali aquela respeitabilidade burguesa, e isso me agradava.
Zygouris reconhece que seu modo de entrada na clínica foi diferente, enquanto muitos só se autorizam a iniciar o trabalho clínico após longos anos de análise, ela diz ter começado muito cedo, depois de três anos de análise. Isso era comum em sua geração: a Escola Freudiana de Paris estava em formação e Lacan precisava de membros. Ele não selecionava os melhores, mas aqueles de quem precisava. Sendo estrangeira, Zygouris destaca que foi muito bem acolhida na Escola. Os tempos eram outros, e sua geração viveu um momento em que a formação psicanalítica se dava de forma mais espontânea, menos normatizada e mais atravessada pela urgência institucional e pelo desejo de ocupar um lugar.
Teve também uma experiência marcante com Jenny Aubry, uma figura relevante da psicopediatria. Trabalhando em seu serviço, passou a receber encaminhamentos de pacientes, mesmo sem ter uma instalação apropriada. Quando tentou explicar essa dificuldade à Aubry, ouviu dela: “Tenho confiança em você. Vou me aposentar em dois anos; você tem dois anos para decolar.” Foi assim que alugou um consultório e começou a atender, embora achasse que ainda não estava pronta para isso.
Vale a pena ler esse texto por inteiro. Ele tem um caráter — por mais que muito pessoal — histórico, já que atravessou os dilemas daquele tempo com atenção e dedicação a eles, podemos dizer assim. Os acontecimentos não eram alheios ao que fazia. De modo geral, ela atravessa diversos assuntos: suas supervisões com Lacan, apresenta uma observação interessantíssima sobre o passe, sobre o ato de dissolução de Lacan e sobre sua heterodoxia e liberdade.
Sobre esses últimos aspectos, Zygouris comenta que “As teorias são como idiomas. De vez em quando faço o seguinte exercício: tomo uma sessão e tento relatá-la em “lacanês”, em “kleinianês”, em “winnicotês” e assim por diante. Trata-se, obviamente, de graus de leitura e, forçosamente, cada grau de leitura deixa de lado algumas coisas; a leitura nunca é exaustiva”.
Ao afirmar que "a leitura nunca é exaustiva", ela nos convida a uma posição ética frente ao saber: reconhecer o caráter parcial de cada construção teórica, abrir-se à multiplicidade e manter a escuta clínica em movimento, sem se fixar dogmaticamente em um único referencial. Uma postura muito bem-vinda, além de um exercício muito interessante para exercitar a escuta, de alguém que aposta na psicanálise.
O Palavra e Vereda é construído por quatro psicanalistas cujo encontro não é casual; ele se enraíza em experiências compartilhadas desde a graduação em Psicologia, na política e em outras vivências críticas no trabalho clínico. Encontrar e sustentar um grupo de trabalho que se encaixe dessa forma não é trivial; para nós, produz sentido para o cotidiano do trabalho com a clínica psicanalítica. Se quiser saber mais, acesse nosso site.
Boas vindas!








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